domingo, 8 de maio de 2011

"VALE DOS AFLITOS"

Eu tenho medo de escrever aqui
porque agora tem tanta coisa que eu não sei se esse espaço é realmente seguro
mas acredito que a gente tenha pontes - você sabe - entre uma alma e outra que não precisam
de palavras. desse jeito assim Tão indiscreto_____________

O que eu fiz desde que você partiu:
bebi vinho, branco sempre, conheci muitas privadas - de joelhos - e com uma outra técnica nova que descobri, inclinando um pouco mais a garganta e sempre bebendo água gelada antes
ouvi que ele estava preocupado comigo por causa disso, tentei explicar que era uma forma de lidar com as coisas. não se pode colocar muito dentro da minha bolha interna por isso saio expelindo. a parede interna da minha bolha está sensível como água viva.

segurei muito o choro, mas quando encontrei meu amor, aquele amor do guindaste, chorei em seu colo deitada na cama com o edredon entre as pernas depois de transarmos por muitas horas - mas podiam ser dias - anos -

- amor sempre manchado de vermelho


segurei o choro quando encontrei com Ele. passamos a maioria dos dias juntos, estamos nos segurando e fomos naquele bar de jazz que Ele tanto fala.


Estou com medo.
não quero muito da vida - e isso está me assustando - ou quero tudo e tanto que fico com as mãos atrofiadas.



te amo, a verdade é que eu gostaria que você estivesse aqui ou que o brasil fosse um chile bem grande - ou que o chile fosse um beco virando a esquina, um andar 7,5, uma fissura na lareira.


Há dois ou três dias eu tive um repentino acesso de lirismo/desespero e entrei correndo naquele pão de açucar da consolação com a Iza em pleno horário de pico, fui direto para a prateleira dos frios, nenhum queijo de cabra, meti a mão na primeira garrafa de leite que vi e comecei a beber ali mesmo em frente à geladeira. Bebi goladas gigantescas quando percebi que já estava no Brasil e que eu segurava um leito integral comum da marca "Fazenda" ou something. "Glutona" era o meu nome.

Ontem à noite me passou algo semelhante. Não sei se você lembra que meu quarto tem duas portas e que eu inutilizei uma para encostar a minha cama na parede - que louca, já trato como se tivesse passado 5 anos ("asi que pasen cinco anos") - e que nesta porta "trancada", colei, já há algum tempo, do lado de fora que dá para o corredor, uma plaquinha de porcelana daquelas lusitanas que diz "Vale dos Aflitos". No meio dessa madrugada acordei com a certeza de que estava na Suiça, levantei porque queria comer queijo, fui andando meio tonta pelo corredor, estava tão frio, as noites tem feito tão frio aqui, e meio dormindo ainda cheguei na cozinha e lembrei que estava no Brasil. Como quem lembra que tem dois braços ou duas pernas. Então voltei correndo para o quarto, eu não sei porque correndo, pode ser que seja o frio, tombei com a porta fechada e fiquei tentando abrir por um bom tempo, só falta essa merda ter emperrado, eu pensava, até perceber que era a errada, que eu tentava entrar pelo lugar errado, pela saída, ou como quem tenta comer pela orelha.


SABE - eu sentei no chão, encostei na parede e chorei um pouquinho - sensação de que é assim que está correndo a minha vida - eu sempre tentando entrar pelo VALE DOS AFLITOS.

Mas eu não sei onde está a outra porta, querida. Eu não sei nem SE HÁ PORTA.

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