terça-feira, 31 de maio de 2011

A little bit thicker?

Estou tão cansada do teatro. Tudo que é teatro agora me enjoa. Tem inflamações demais. Hoje minha mãe deixou três caixas de coisas antigas na minha casa, cds, dvds, textos e um banco de madeira que eu comprei recentementea. Fiquei feliz no primeiro momento porque reencontrei Taxi driver, Camille Claudel, Um dia de cão, Whisky, As luzes da cidade, Miles Davis, Queen.... E O LINDO E AMADO LEAVING LAS VEGAS. Este filme poderia ser o filme da minha vida. Sou por dentro um Nicholas Cage em potencial. E aquela prostituta loira é tão bonita e tão alguma coisa que me sinto atraída por ela mesmo sem gostar exatamente deste biotipo de mulheres loiras do cinema. E tem uma cena com whisky na beira da piscina em que eles tentam transar. Deve ser o ápice da minha alegria, amor e whisky num mesmo copo.

Mas não é só isso. Tinham pastas e pastas de textos da minha pré adolescência até os meus 18 anos. E eu era mais ácida e mais irônica, sim. Mas um pouco mais despreocupada. Sem grades. Sem pontos. Sem maiúsculas. E achei coisas recorrentes. Achei coisas sobre o vomito. Sobre álcool. Mulheres. Muito sexo. E muita música. Só que naquela época era menos jazz e mais rock'n'roll. Muita Janis Joplin. E o Marcus estava aqui quando as coisas chegaram e o primeiro texto que reli, em voz alta para ele também, era um conto chamado "olfato" e a personagem tinha o seu nome.

E voltamos com o assunto do teatro e eu já disse bufando que não queria saber de nada a ver com o isso e ele me disse que a minha raiva era das pessoas e não do teatro. Mas se são essas pessoas que fazem o teatro, então o teatro é reflexo delas também. Ou não é? Então ele tentou me convencer de fazer o movimento sem teatro dentro do teatro. O movimento sem atores. O movimento teatro de bonecos. O movimento......
"Cuide-se e salve o que você tem." E na verdade eu só queria abrir mais uma garrafa de vinho. Eu disse "Eu deveria tacar fogo nesses papéis todos". E no dia que eu hastear fogo vou jogar fogo também em mim mesma e ele lembrou "waking life" e eu lembrei de "eu, você e todos nós" em que o personagem taca fogo na própria mão para chamar atenção dos filhos.

É isso. " a little bit harmful for me"

Já encontrei o teatro de tantos jeitos em tantos lugares e com tantas idades. E tudo o que eu tenho conseguido nesta escola é detestá-lo cada vez mais. Me lembro de uma cena de quando eu tinha uns 12 anos e meu pai estava em cartaz com uma adaptação dos Irmãos Kamarazov que se chamava "Cinema Kamarazov". Era uma história que se passava um tempo após a tragédia toda, em que o Ivan havia se tornado cineasta e estava filmando a história dos Kamarazov e então a peça se dividia entre o presente dos atores e do cineasta e partes do filme, que aí sim, era a história do livro. Eu achava incrível porque não sei como eles conseguiam criar esses dois mundos de forma tão perfeita e quando passava as cenas do filme, tinha uma luz azul que tremia, num recorte quadrado ao fundo do palco, como se aquilo estivesse sendo projetado, mas estava acontecendo AGORA. Isto era incrível para mim. E lembro muito do personagem do Smerdiakóv, cheio de loucura e suicídios. E lembro de uma cena que a sua mão esquerda começava a se debater involuntariamente e ele tentava segurá-la pelo punho com a mão direita. Acho que eu encontrava alguma identificação. Lembro também que eles passavam essa cena e depois o cineasta dizia que não ia colocá-la no filme porque era exagerada e o ator que fazia o Smerdiakóv ficava puto e eu também ficava puta porque claramente era a melhor cena não só do filme como da peça. Meu pai fazia o ator que fazia o Ivan no filme. Mas curiosamente lembro pouco das cenas dele. Lembro que ele tinha cabelos cumpridos nessa época. E lembro que eu ia a quase todas apresentações e assistia também aos ensaios. Mas não falava nada. Ficava na platéia assistindo tão quieta quanto podia ser. Desejando também fazer parte daquilo. Discretamente eu era uma testemunha ocular. Alguma energia indireta praquela peça acontecer. E sabia pedaços de falas inteiras. E comecei até a aprender o tom de voz dos atores. Lembro de uma fala até hoje que começava com "Inconsistência feminina". E os atores me viam ali e diziam "olha só, se alguém ficar doente você já pode fazer o papel no lugar dele" E eu poderia mesmo. Mas eu era uma menina e certamente não serviria para o papel. Mas aquilo era teatro e talvez servisse. Talvez no teatro qualquer coisa fosse possível e eu me esforçaria tanto que poderia funcionar, e eu sabia tão perfeitamente até as pausas e os agudos e os graves da fala que talvez nem percebessem que eu era uma menina e que o ator tinha faltado aquele dia. Também lembro do dia em que a Barbara Heliodora foi assistir o espetáculo e que todos falavam dela e todos estavam tão nervosos e eu não entendia. Não entendia porque uma pessoa, uma mulher que não tinha nada a ver com aquilo ali, que nunca havia estado presente, podia modificá-los tanto e de forma que a peça ficasse melhor ou pior só porque ela estava ali. Eu já comecei a detestá-la e nem quis saber o que ela escreveu depois. Pedi para que meu pai não me contasse porque eu também não queria ser afetada por aquilo. Eu só perguntei "quem é essa mulher que todos estão falando? " e ele disse "uma mulher que fala mal de todo mundo".

Mas isto tudo para falar que eu nunca pude amar o teatro como naquele tempo. Nunca pude acreditar e desejar fazer tanto parte como naquele lugar. Eu gostava das pessoas, gostava do clima. Gostava da caixa preta e gostava de deslocar oceanos dentro de mim. Gostava de ir assistir uma coisa que podia habitar milhões de mundos ao mesmo tempo. Gostava de me sentir parte daquilo mesmo não estando no palco. E por isso não era cinema. Por isso era teatro. Mas agora tudo está ficando muito azedo e ácido e desiludido. E as pessoas estão fracas nas suas relações. E tudo parece hipócrita demais. E meu pai já não atua mais. E eu já não posso voltar para aquele lugar onde eu estava. Onde eu me sentava toda a noite para assistir. Sem julgamentos e conceitos. Estou um pouco triste com isso. Mas eu sei. São também as coisas da infância.

E do nada agora me lembrei de que quando fui me inscrever para a SPET eu pensava em fazer atuação. Não porque eu goste de atuar. Mas é a primeira coisa que a gente pensa. Mas lembrei que fiz atuação a minha vida inteira. E só sabia naquela época que eu ainda não tinha encontrado em nenhum curso o tipo de atuação que eu queria e que talvez fosse naquele lugar novo, nesta escola... Porque eu simplesmente não queria ficar sem o teatro. E quando cheguei para fazer a minha inscrição eu coloquei Dramaturgia. Eu não sei. Mas na hora eu pensei que deveria tentar uma outra coisa. E como nenhum dos outros cursos pareciam me encontrar eu escolhi este. E saí chateada porque talvez tivesse cometido um equivoco e peguei o ônibus e então lembrei de algo que meu pai havia me dito depois de uma apresentação na minha adolescência. E ele foi me parabenizar pela peça e eu disse "É. Foi bom. Mas não é bem isso. Ainda não é isso." e então ele me disse que talvez não fosse esse o lugar que eu queria no teatro. Que haviam outros. Mas eu não entendia. Passei a entender depois do primeiro dia de aula na SPET. E agora já não entendo mais nada. Porque não tem prazer. E eu queria que o teatro fosse uma garrafa de vinho sem rolha.

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