What a night for a suicide
"Ontem cheguei exausta em casa.
Três ou quatro doses de cachaça.
Quatro mulheres fazendo escândalos.
Namorinho de portão.
Uma quase arranca a perna numa apresentação.
A outra quase me arranca o coração com um beijo escorregadio e rápido de tchau.
A outra não fala comigo desde que você partiu.
E a minha mulher do guindaste no bar a minha frente conversando com outras pessoas.
E olhava cada copo de cachaça que eu colocava na boca.
Cheguei perto dela discretamente e disse: Vamos embora daqui.
Ela disse "deixa eu terminar a minha cachaça primeiro"
Peguei o copo dela e entornei inteiro na boca "Agora você terminou".
Fui embora sozinha.
Ela foi atrás de mim, entrou no meu carro, disse "Agora faço o papel de clown de uma peça ruim que vai atrás de você."
"Você não é clown nenhum. Te levo para a casa ou você vem comigo?"
Ácido lático na cara.
Gozos e suores etílicos.
Olhos ardendo.
Chorei do começo ao fim de um sexo sofrido.
Meus olhos eram dois furúnculos inchados.
Ela foi embora.
Lembrei de um trecho de uma peça horrível "E eu faço o que com esses lençóis entre as pernas?" Lembrei que a peça era a minha. Quis ler Eliot, eu não o acho no meio dessa bagunça. Recebi um telefonema convidando para ir para uma festa. Liguei pro Marcus para pedir que ele fosse comigo, ele está em San José, eu já sabia disso. A Iza vai estar lá, então eu vou. Quero apenas estar com a minha borbuja. Fiz jantar, tomei um suco ao lado do metrô. A mulher do guindaste me liga e diz que foi assaltada logo depois que saiu da minha casa, "um homem levou meu celular aí no metrô" e começo a olhar para todos e quero ter um canivete para cortar a cara das pessoas, ou a minha própria. Eu quero abraçá-la mas não posso. Ela diz que me ama e talvez ame mesmo - mas no fim das contas estou sozinha. Continuo o trajeto. Bebi água no Econ e uns metros antes de chegar na festa começo a passar mal. Sinto frio. Enjôo. Acho que vou cair. Subo para a festa. Encontro a Iza. Peço que ela compre uma garrafa de água para mim. Vou ao banheiro e vomito involuntariamente todo o meu jantar. Encontro um colchão jogado no canto do apartamento. Deito lá até a Iza voltar. Bebo um gole de água e quero vomitar de novo. Sensação de que meu estômago está rejeitando tudo que ingiro. A Iza começa uma história sobre nutrição e bulimia. Peço para recontar amanhã. "Você pode me por num taxi?" peço. A Iza é uma boa parte da Tábata da história que eu estava escrevendo, chama-se a "a dramaturga de mlle chagas", você lembra? Pus também nossa conversa sobre tomates entupindo. Iza me entrega para o táxi, abre a porta para mim, diz que me ama, eu a amo mas tenho medo de dormir sozinha. Quero voltar para o útero de onde nasci, digo. Faço um telefonema. Daqui a pouco estou na casa da única mulher com quem me casei. Ela me deita na sua cama. Me faz um chá. Troca minhas roupas. Meu estômago tem uma tuba por dentro. Fez tanto frio. Escuto ela chorando bêbada ao meu lado. Já não consigo entender uma palavra e durmo. Acordo no meio da noite e encosto no cabelo dela. Estão molhados. "Você tomou banho" murmuro. "É que você nunca gostou do cheiro de cigarro". É verdade, mas me acostumaria com qualquer cheiro se fosse preciso. Durmo novamente. E acordo numa casa cheia de gente comemorando o aniversário de alguém que eu não conhecia. Saí. Com o peso do mesmo coturno com que saí ontem a noite.
Agora estou aqui______no Paraíso.
Ouço Kinks
E sinto sua falta."
Finja que não leu nada disso. Não sei porque ainda mantivemos este blog.
Se não podemos ter segredos.
Meus segredos são essas fissuras quentes
estão entre os pontos e as vírgulas.
nos pequenos choros.
Onde você está?
Me escreva você. Porra.
Se não podemos ter segredos.
Meus segredos são essas fissuras quentes
estão entre os pontos e as vírgulas.
nos pequenos choros.
Onde você está?
Me escreva você. Porra.
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