Essa história me lembrou aquele poema que escrevi pra vocês:
"Como se fossem meus (03/11)
escolhi, com dedos, poemas
da mais alta estirpe
para entregar-lhe.
não que eu fizesse ares de camões
ou pessoa, ou qualquer pompa.
escolhi, ao contrário,
poemas simples,
até mesmo rudimentares,
vindos do musgo ou do muco de uma calcinha,
às vezes desenfreados
ou com péssima rima
mas que pudessem exprimir
exatamente aquilo
que eu intimamente desejava
e o excesso de boca
que me impedia.
estou cansado desta fofoca
de que tudo já foi dito
mas estou ainda mais cansado
de dizer qualquer coisa
porque, meu bem, não tenho
nada, apesar de muitos terem,
além do que estas poucas páginas,
para vos-expressar.
e quando uso o voz, tampouco
é sinal de cultura,
apenas mais uso
de um burro velho despreparado
e doente para um mundo
tão ridiculamente sapiente.
e eu acabei me tornando tão... frugal?
para não dizer arcaico - mas arcadismo,
com certeza, é o que mais não se parece
comigo.
por isso agora, arranquei-me
a língua e dei-me a consagração
de o escritor-abolido.
o escritor-morto-que-continua-vivo
o escrito-apreciador
o escritor-parasita
o escritor-cachoeira
o escritor-mar
o escritor-long-island
o escritor-hedonista
o escritor-para-você-o-que-seja
o escritor-frívolo
o escritor-esquecido
o escritor-triste
o escritor-sem-frustração
o escritor-apenas-que
mas um escritor cheio de mínguas mágoas
retroativas
sibilantes
na alma
escondido em hondonadas (bolhas)
nas venas
de outros poetas"
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