Eu nunca desejei ser mulher, como agora sinto.
Sempre foi uma das coisas que tentei apagar com o meu feminismo tão extremista.
La sangre caliente que luego va a salir de mi cuerpo, la pequeña sangre, la sangre!
Sei bem como é ter um lenço pelo corpo, a textura, as cores te abraçando, o calorzinho que sai dos fios. Aliás, lenço meu não é, um ficou aqui com a Dione e o outro te segue por essa terra antiga.
A distância é coisa de poeta, poeta precisa de ar para respirar, ar que não esteja todo contaminado por presença querida, na distância a gente ama sem igual, em distância a gente sabe que vai embora, mas que sempre pretende ficar. Eu lido deslidando tudo, sabe? Deslido o meu jeito, deslido a minha forma de ser, eu estou partindo, é verdade. Choro quase todos os dias e gargalho como ninguém, não precisa lidar com nada, deslide, sabe? Deslide de tudo, deslide por tudo.
Não precisa esperar tantos passos, segundo minha mãe meus pés já estão lá, só os sonhos ficam reverberando por aqui. De fato, eu serei a mulher que sempre seguirá seus passos, a que guardará seus segredos e “desgredos” mais íntimos, gostaria de ter todos os seus “desgredos” em caixas ou espalhados pela minha futura casa, sabe? Desgredos, são aqueles segredos que um dia foram, mas agora precisam de espaço, ar, vento, folha, rio, desleixo para brotarem.
Será que posso formar um U com as pernas?
Terei uma coleção de bules, talvez eu coloque os “desgredos” de todos os meus amigos dentro deles. Talvez eu nunca consiga deixar a água ferver, porque tenho uma ansiedade do tamanho do bonde que o Drummond canta. Odeio ficar ao lado do fogão esperando as bolinhas saltarem. Ahhhh, mas no Chile é diferente, posso ter uma tetera que esquenta a água por mim, assim posso ler tranquilamente e quando apitar preparo o chá.
Compartilhamos o gosto pela pasta, eu adoro macarrão, também gosto de tudo que possa ser entregue em pasta. Se você sair de dentro da Terra, eu plantarei cerejas no buraco da fechadura. Quero que as cerejas cresçam dentro e fora, no telhado e nas janelas. Comerei cerejas de formas inusitadas, será que é possível inventar uma receita com cereja e mustardadinha em pasta? Seria uma daquelas receitas para a bolha.
Vou procurar uma casa que tenha um “oso”, será que encontro? Eu adoraria acordar e sentir as garrinhas dele saindo pela torneira ou acariciando minha bunda enquanto me banho ahhhh...
Ter ou não ter sementes é um detalhe apenas, tem gente que germina sem ter sementes, sabe?
Eu nunca tive paciência para plantar, eu queria que tudo já estivesse ali, gostaria de cultivar uma árvore de lichia no meu ouvido esquerdo, de repente alguém poderia jogar algumas sementes e com a água do chuveiro o broto saísse.
Você parece amar e odiar Londres, todos os bloody Mary que você bebeu parecem modificar o meu paladar. Ando compulsiva por pimenta, nunca gostei, no entanto, agora esse ardor não me sai da boca e nem das bochechas. Em São José a gente comprou uma lingüiça cheia de pimenta bem vermelha. Eu sentia minhas mejillas explodirem, sentia como se fosse cuspir fogo pelas ventas.
Hospedada em um albergue espanhol, eu posso imaginar isso. Minhas deusas, eu posso muito imaginar isso, você chegando nessa periferia que é tão centro também, sua viagem me contamina até os poros e quase me esqueço que irei partir em menos de uma semana. E tenho tanta gente para abraçar e tenho tanto medo por sentir.
Espero você chegar em Geneva para abrir mais uma garrafa de cerveja, espero você chegar lá para te amar como nunca. Nada melhor que poesia para limpar a bunda em tardes tão cinzas, por aqui o outono realmente chegou...
você está plantando sementes em mim
você está plantando sementes em mim
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