Querida J.M.
Desde aquí te escrevo algumas linhas, sao linhas cheias de uma saudade quase
verde. Acabo de fazer uma massagem com oléo de amendoas, lembrei de voce, quando
com os dedos rapidos, tentava tirar os nós das minhas costas.
Eram dias de uma esperanca timida, as mulheres se cansam de esperar, mas seguem
esperando, como num conto Mapuche,
seguem esperando porque ainda existe
a possibilidade de se cansar, essa pequena possibilidade que faz com que uma pare na esquina
mesmo com chuva.
Tive um pesadelo, a gente estava nessa cena, ao cruzar uma esquina alguem era atropelado,
a cabeca rolava por metros e metros, eu nao consegui ver quem era, parecia
comigo, parecia com voce, parecia com o Marcus, com a Iza, alguem, naquela esquina, sem
cabeca, eu acordei chorando, foi intenso e profundo. Alguem realmente perdeu a cabeca, eu vi
a cabeca rolando, rolando como fruta podre. Nao foi triste, a gente ria como ninos, mas alguem
nao tinha mais cabeca.
Perder a cabeca pode ser bom, nao sei porque despertei chorando, despertei no meio da noite,
despertei com o frio cocando meus pes, perdi toda a minha nudez, ando muito branca, o sol aqui
é forte, mas nunca estou exposta, tenho muitas roupas para me abrigar, agora nao ando mais
com os ombros encolhidos. Cansei de me sentir amuada, agora caminho com os pés cheios
de la. Tenho a meia que ganhei, está bem gasta, será que um dia irá furar?
Nao lembro a hora exata em que tentei me suicidar, lembro que foi depois do
almoco, eu nao queria morrer de manha, foi a hora em que nasci, nao queria
que fosse um ciclo tao perfeito, se bem que ciclos sempre sao perfeitos por serem
ciclos, nao? Eu tentei me matar num hotel barato no centro de Sao Paulo, eu tinha
vinte e tres anos, eu imaginei que poderia me matar,
eu estava num quarto de hotel, da forma mais clássica possível, da forma mais cliche
possivel.
Me sufoquei, perdi o ar e meu corpo entrou num estado de sonolencia, perdi os sentidos
por minutos, talvez horas, nao sei ao certo, era um equilibrio perfeito,
nao sei o que sonhei, era um estado de nao ser, nao existir, perdi o fio dessa existencia.
Por um tempo fiquei no vácuo, como um orgasmo que te leva aos abismos...
Sim, quando eu tentei me matar meu pescoco ficou todo aberto, eu tentei cobrir com
uma echarpe, tentei esconder o atentado, já nao lembro a data exata, era uma tarde
de novembro.
Eu nao sei o que ficou daqueles dias, se era um desespero ou a vontade de sentir
algo mais forte, de me sentir viva, de me sentir mais humana, cair em desgraca por alguns
minutos.
Nao sei porque te conto tudo isso, eu deveria te contar dos meus dias, da hora em
que estavamos todas mortas. Das horas em que as sementes parecem germinar
sem que ninguem possa olhar, nessas horas posso abrir meus envelopes
e cheirar as cartas que insistem em chegar.
Deve ter passado muito tempo, uma vez que a data da partida estava fixada, nada se
podia fazer, tudo ocorreu brutalmente. Seu corpo nao queria mais partir, estremecia.
O rosto rangia, era um sorriso de desculpa, talvez sua potencia jamais voltasse,
dessa dor nao se falava, tínhamos resolvido nao nos ver mais, no entanto nao
foi possível. Todas as noites nos encontravamos cheios de uma eternidade fugaz...
Eu te cuido e voce me cuida,
eu também tenho medo desse blog, talvez passe, está tudo arregacado.
Abrazos de manjar...
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