sábado, 18 de junho de 2011

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a noite não poderia ser menos histérica
nem tão silenciosa
breu fundo deste bairro de comerciantes
uma gargalhada ao fundo, louca, com o carro voando
sumidouro no escuro
de um ranço de amor passado
inalcançado
estrondoso deixando-se ir com maguazinhas não declaradas
mudo o rumo do caminho
há agora outro amor
sou a pessoa mais imatura que conheço
e no entanto
estou aqui limpando a minha própria latrina desde os 11 anos
talvez menos
se isso significasse alguma coisa
mas não significa nada
olho para os cheques estendidos na mesa da sala
e as contas
e faço os cálculos
e o que me sobra:
um jantar
dedicado
às duas pessoas mais amáveis que tenho conhecido
com todo o meu amor maduro
de alma imatura
bebo dos vinhos mais caros
do atum como um bife sangrando
os brotinhos de alfafa na tapioca
tudo produzido por um grande chefe
e a decoração de cordel
e elas conversam
com suas vozes afáveis
e eu as admiro
e vou ficando calada
e calada
e calada
porque tenho ternura encarnada
que vem dos olhos delas
e da lembrança do amor encardido que deixei ir embora pelo Brás
que me despedi
mais uma vez esta noite
com um pouco de tristeza
mas de sabedoria
talvez seja isso: uma dolorida sabedoria
que tem um ar também estriado de um bebê chorando
e volto sem comer a sobremesa
porque não gosto de sobremesas
e sorrio por dentro
e choro por dentro
e também não sei onde por as mãos
e encontro o volante do carro
e vou e volto sem pressa até o jabaquara
e faço amor quando chego em casa
e minha tosse continua
e abafo-me com um pano quente
se pudesse sufocaria-me
para não acordá-la
e tusso e tusso e tusso
e ela não se importa
e dorme quieta
e como se não me acalmasse
venho escrever um poema

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