Mas eu não sei nem como se parecem os pulmões, talvez seja algo como um algodão doce murcho e amarelado... Ou algo como uma teia de aranha contraída e preta. Ou uma massa estranha. Ou talvez fosse feito de éter e ar. Ou talvez fosse roxo e meio bege e meio sem cor como todos os outros órgãos que mexi nas minhas aulas de anatomofisiologia na faculdade. Até o coração era roxo, mas isto deve ser porque estava morto, porque estava ali sem sangue estirado. E uma vez vi um coração muito diferente de todos. Esticado. Duro. Com seus nervos assustados. Disseram-me que havia sido um infarto.
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Mas isto não parece interessante. Embora em algum lugar me encante um pouco. Hoje estou tossindo menos e a sensação de que preciso dormir a qualquer momento está passando. Mas a casa sim, a casa está completamente enferma. É uma casa de enfermo com as cortinas fechadas. Parece que quanto mais passamos tempo dentro de casa mais ela se desorganiza e vai virando um amontoado de coisas. Amontoado de enfermidades. O futon da sala está esticado. Tem roupas nas cadeiras. Xícaras de chás antigos pela casa. Filmes do kubrick nas dobrinhas do sofá. Jornais que ainda não li. E cobertores que não preciso mais usar. E há ainda um cheiro estranho que não sei captar daonde vem e nunca vai embora. Um cheiro estranho que tem me feito companhia. Lembro de Macbeth com aquelas manchas na mão, mas mais do que isso lembro de Jack de 15 anos, personagem de "The Cement Garden" de Ian McEwan que sente um cheiro estranho pela casa e fica obcecado com ele até descobrir que vem do baú acimentado aonde colocara o corpo da sua mãe. É um cheiro azedo, meio ácido, mas não é ruim. Só um cheiro estranho. Mas sei também que pode ser apenas esta sensação de coisa doente farejando a casa.
(...)"- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."
(.......bandeira)
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