quarta-feira, 22 de junho de 2011

Pneumotórax

E por falar em frio, eu já havia me acostumado à ele. Fez frio por muitos dias seguidos. Num contínuo sem espaço. E eu me preparei para ele. Comprei coisas quentes. Arranjei um aquecedor. Vesti roupas por cima de roupas e esqueci o que era usar um short ou andar nua, como gosto sempre de andar, nunca tive intimidade com as roupas. Mas há alguns dias, uns 4 ou 5 que faz calor. Não um calor infernal como aquele do Rio que você quer tirar a própria pele para dar lugar ao vento. Um calor fresco e na sombra até pode ficar um pouco frio. Mas é insuportável agora pra mim. Havia feito uma grande coleta dentro de mim mesma para o frio. Para um inverno rigoroso como fazem os ursos polares. Me recolhi. O tempo está muito seco. E esta cidade é poluída. Parece que respiramos fumaça o tempo todo. Fui ao médico porque segui tossindo por dias. A gripe passou, a febre passou, mas a tosse estava lá. Então ele me disse que eu estava com uma infecção pulmonar e me receitou as drogas de sempre. Agora estou em casa, fazendo as coisas que tenho que fazer, e parando pra tossir de vez em quando. Existem muitos tipos de tosse e a minha foi mudando. Agora minha tosse tem uma espécie de vibração no peito. Ela vibra inteira na garganta até sair. E por vezes me machuca. Ontem de madrugada tossia tanto, deste jeito, que parecia um terremoto dentro de mim, e quando a tosse se abria pela boca eu tinha a nítida impressão de que iria expelir parte do meu pulmão. E isto me lembrou aquele texto imaturo que que escrevi em resposta ao Sucidado da Sociedade... Inicia com algo como "um pedaço de pulmão saindo pela boca..."... Acontece sempre de escrevemos nossas notinhas autobiográficas por entre as linhas, agora tem me acontecido ao contrário, começo a encenar coisas que escrevi sem perceber.

Mas eu não sei nem como se parecem os pulmões, talvez seja algo como um algodão doce murcho e amarelado... Ou algo como uma teia de aranha contraída e preta. Ou uma massa estranha. Ou talvez fosse feito de éter e ar. Ou talvez fosse roxo e meio bege e meio sem cor como todos os outros órgãos que mexi nas minhas aulas de anatomofisiologia na faculdade. Até o coração era roxo, mas isto deve ser porque estava morto, porque estava ali sem sangue estirado. E uma vez vi um coração muito diferente de todos. Esticado. Duro. Com seus nervos assustados. Disseram-me que havia sido um infarto.


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Mas isto não parece interessante. Embora em algum lugar me encante um pouco. Hoje estou tossindo menos e a sensação de que preciso dormir a qualquer momento está passando. Mas a casa sim, a casa está completamente enferma. É uma casa de enfermo com as cortinas fechadas. Parece que quanto mais passamos tempo dentro de casa mais ela se desorganiza e vai virando um amontoado de coisas. Amontoado de enfermidades. O futon da sala está esticado. Tem roupas nas cadeiras. Xícaras de chás antigos pela casa. Filmes do kubrick nas dobrinhas do sofá. Jornais que ainda não li. E cobertores que não preciso mais usar. E há ainda um cheiro estranho que não sei captar daonde vem e nunca vai embora. Um cheiro estranho que tem me feito companhia. Lembro de Macbeth com aquelas manchas na mão, mas mais do que isso lembro de Jack de 15 anos, personagem de "The Cement Garden" de Ian McEwan que sente um cheiro estranho pela casa e fica obcecado com ele até descobrir que vem do baú acimentado aonde colocara o corpo da sua mãe. É um cheiro azedo, meio ácido, mas não é ruim. Só um cheiro estranho. Mas sei também que pode ser apenas esta sensação de coisa doente farejando a casa.




(...)"- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."
(.......bandeira)

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