domingo, 5 de junho de 2011

nostra bolha é também convexa

Você tem me feito muita falta.
Ontem falei de você para alguém e quase choro.
É difícil encontrar pessoas, Nena, pessoas.

- E no entanto estão todas aí.
Mas é difícil o encontro. O encontro das pessoas com as pessoas
Quando estamos no nosso momento
E elas estão nos dela
E por alguma razão isso se dá.
E você se injetou em mim.
Estou cheia de uma coisa sua por dentro.

E por isso que sonho com casas de campo, lugares mágicos, fissuras nas paredes e nos estômagos, aonde possamos estar juntos. Poderiamos ser todos john malcovich por um minuto juntos. É o que eu sinto às vezes. Tem momentos. Momentinhos. Que nos juntamos para ser John Malcovich juntos. Entrar neste mundo intra-uterino juntos. NESTA HONDONADA. Neste leito de dor e amor.

"Quero ver a neve junto com voce, me cortar, rasgar o rosto"

Imagino você nesta festa, com este curanto, nesta roda de homens, e sabes que? Imagino também o que você pensou. Aos poucos você poderá se expressar também. O vínculo é criado também no silencio e depois, depois, você solta duas ou três palavras que consolidam aquilo. E assim também serão os amigos que você vai criar aí. Afinal, desde a primeira vez, quando te ofereci aquela cachaça em casa, você aceitou, mas não estava muito convencida de que era pra ter aceitado. Algo que era tão simples. Você me olhou por cima dos óculos do jeito que você faz. Desconfiada. E no entanto. Quase um ano depois eu tirei a roupa em cima de uma pedra com 696 metros de altura para brincar de EVA e você me seguiu sem ao menos contestar o que estava acontecendo ou porque eu estava fazendo aquilo. São côncavos e convexos também os caminhos.


Hoje odeio teatro, mas talvez seja a forma mais genuína de amá-lo. Poucas coisas tem tanto amor e ódio assim pra mim. E são as coisas mais densas, mais intensas, mais fundas. Penso sempre em Racine quando penso nisso. Algo como "Eu a amei muito para não lhe ter ódio". Quando penso nos amores que são capazes de evocar ódios profundos e no entanto depois renascem como tarântulas coloridas caminhando sobre o peito. Suaves, quase de seda. Amor e sua generosidade infernal. Amor e sua capacidade de resiliência infernal.

Eu penso sempre em você e sempre na sua capacidade de criar, de produzir nessa terra fértil daí, porque são férteis os terrenos desconhecidos. São férteis os terrenos do amor. São férteis o terreno onde você pisa com suas coxas grossas, fortes, firmes, esa onda. Esa onda, nena. Esa onda, vai virar. E se você for fazer o seu programa de receitas com literatura, gostaria de participar com minha receita de Bloody Mary enquanto recito um diálogo do Hemingway ou algo assim.


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Você fala do sexo. Sexo é tudo o que eu tenho e é tudo o que pode segurar no meu sofrimento agora. Ando apanhando mas bato muito. Sexo com muito amor. Este amor louco de anjos diabos. De Fridas e Adéles H e Florbelas e Camiles. Não posso deitar, hoje, no colo do amor com calma. Quero o amor que respira. Mas hoje não posso porque as circunstâncias estão assim. Porque os limites hoje são esses. Quero ver televisão com o amor porque quero descanso, mas hoje não posso. Hoje não há esta saída e ainda prefiro deitar sobre o sangue do amor. Sair descalça na rua como saí ontem. Do que ficar sem ele. Amanhã não sei, amanhã não sei se aguento ou se me refaço. Mas hoje estou aqui. Segurando firme meu próprio útero.

E você está aí, alastrando Chile com seu gozo. Marcando este território que agora também é teu e que também te pertence. É isto. Eu acho que é também isto.

Você não sente que há amores para o frio e há amores para o sol? Eu também já não aguento mais este frio, medo do meu coração gelar junto, mas olho para ela e ela me diz "estou vestida como se fosse parte de uma peça do tchecov". Mas eu penso em Dostoiévski. E penso na Gruchenka, disputada entre pai e filho, em os Irmãos Karamazov. E quero ficar perto. E beber uma vodca. E talvez aqui neve. Talvez aqui neve um dia. Aí no Chile Neva.






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