domingo, 19 de junho de 2011

CORRE SOLTA SEVERINA NOITE

A.T.,

Eu não sei o que você está fazendo aí
Neste Chile que mais parece um poço de vez em quando
Um poço que você emerge e depois desaparece e depois reemerge
E HÁ DIAS DE SILÊNCIO QUE NÃO SEI COMO MEXER
COMO FAZER COMO AJEITAR AS MÃOS EM MIM MESMA
estou com medo e sóbria demais e tossindo demais
sabe quando há esta coisa que você está para achar
e não consegue dormir
para mim sempre achei-a na estrada
mas não há mais estrada para quem tem uma casa
e agora tenho uma - isto é doloroso e maravilhoso porque nunca tive
e agora quando tenho vontade de fugir - como sempre fiz
de casa para casa e cidade para cidade como coisa tonta
não tenho do que fugir nem de quem fugir
e agora fico brincando de que vou fugir de mim mesma
- deste menino de 14 anos que bagunça toda a casa
- e por vezes desta mulher de 85 bebendo uísque na varanda.
- mas sou um pouco tartaruga
escondo-me nas minhas próprias mãos
ou nas minhas próprias mangas
e arranco as mangas
e saio dançando nua pela casa
.
.
.
.
o negócio de ter um lugar
uma caverna
"é deixar as coisas pela casa
e ter certeza que elas sempre vão estar lá"
como os jornais que empilho perto da porta de entrada
como as correspondências do antigo morador fazendo ninho
em cima de um banquinho de madeira
é abrir a garrafa
e deixar sem tampa
e dormir nua
com as portas abertas
e fechar as cortinas
e beber doses de qualquer coisa
e ficar sóbria
e também fazer a própria sopa
e o próprio chá
e sentir medo com um filme bobo do kubrick
e ter um acesso imaturo porque nào consegue dormir
e beber uma dose de absinto
e brigar com alguém que te repreendeu por causa disso
e fazer cópias da própria chave mas nunca doá-las a ninguém
e resolver sair a pé no meio da madrugada
e desistir no meio da outra esquina
e pedir pizza e detestar as pizzas
e chamar os amigos para poder cozinhar para alguém
mas você não precisa chamar ninguém
pode colocar uma música
e tocar o violão
e fazer versinhos tristes
e admitir que está feliz
e apertar o botão da felicidade que preguei na parede
sabendo que não vai funcionar, mas talvez funcione
e dormir com 4 travesseiros
e sentir falta do seu cachorro que vira o rosto cada vez que
você enche seu copo com mais uísque
mas saber que ele não é feliz ali
então fuck-off que ele seja feliz num outro lugar
porque ali não tem espaço
e abrir todos os livros de poesia no chão
no meio de um foco de luz
e fazer um poema concreto
e ter livros demais
e voltar a ler agatha cristie com medo de achá-la babaca
e fazer uma festa
e ficar sentada na escada esperando dar oi para algum vizinho
e descobrir que o japonês da porta da frente ouve beatles
mas foda-se
.
.
.
está muito tarde
e eu vi o box todo do kubrick
e não posso beber porque estou doente
mas preferia não poder estar doente para beber
e vomitar pedacinhos de tomate achando que é sangue
sem saber se é por estética ou por necessidade
como de costume
mas agora preciso achar essa alguma coisa
e não está lá (lá para lá)

são pedras sonhando

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