sexta-feira, 24 de junho de 2011

The house of the rising sun

ELA foi até aquela casa escura encontrá-los - mas que também tinha o nome de A CASA DO SOL NASCENTE - e eles escutaram a versão do Dylan e DOIS comentou sobre a versão da Miriam Makeba e também sobre a versão da Nina Simone. Mas eles ficaram só com o Dylan, UM - perceba como ele enfia mais uma ou duas frases na letra, e ele não está nem aí. E eles nào estavam nem aí. Talvez alguem estivesse. Algum dos três. UM. DOIS. ELA. E DOIS encheu dois copos de uísque da própria garrafa e deixou o garçom puto, então pediu mais uma dose, uma dose que pudesse pagar para o bar, não era jim, mas era jack, e comprou cervejas para ELA. E dividiu a boca em dois uísques diferentes. Mas nunca nenhum scoth. E UM insistia no Dylan, no Kurt, no Alice in Chains, seja o maníaco, narciso que fosse. E ELA prestava atenção, aflita, feliz, triste. E DOIS levantava-se para entender que espaço era aquele e conheceu uma estante única com livros de teatro enfileirados, livros bons e ruins, em algumas línguas distintas. E passeou mais os olhos. Pedaços de cenário pelos cantos. E então uma nota de 20 enrolada, um cartão do plano de saúde, e um amontoadinho de cocaína em cima de um papel. À frente um pote cheio de pó. Pensou em chupar os dedos e passar a coca entre a saliva. Olhou para ELA. Sorriu. Voltou para sua cadeira. Pescou algo ainda sobre a subjetividade das canções de que UM falava, depois começou pedaços de peças adaptadas por ele mesmo, ELA estava ali, ouvindo atentamente. UM - A questão não é essa, entende, não é sair da realidade, as pessoas pensam que isso tudo, essa droga toda e esse álcool todo é sair da realidade, mas justamente não, você está descolado da realidade quando está sóbrio. Não é DOIS? DOIS - Não sei, vou ao banheiro. DOIS desce as escadas sem fazer barulho, na casa do sol nascente não se faz barulho entre às 21h e às 22h da noite, todos sussurram e andam como se estivessem descalços. Foi ao banheiro. Fica olhando um tempo para a porta. Pede uma água no bar. Sobe as escadas lentamente. Olha para a entrada da saleta. A porta e a parede ao lado são da mesma cor. Empurra por um tempo a quina errada, percebe que a porta é a outra. Fica um tempo olhando para a porta. Abre a maçaneta devagar. UM e ELA continuam na mesma posição. Há um resto de conversa. UM - DOIS nunca vai se matar, DOIS também é narcísico assim. UM olha para a porta e vê DOIS parado na entrada. DOIS confirma com a cabeça o que acabou de escutar sobre si mesmo. Desta vez ELA levanta e vai ao banheiro. Silêncio entre UM e DOIS. DOIS senta já um pouco bêbado. Ajeita as mãos para a frente e tenta explicar algo. DOIS - Não sei se é um descolamento da realidade, acho que sóbrios há a realidade e a irrealidade, só que as duas coisas te atravessam ao mesmo tempo, e quando você bebe você don't give a shit para a irrealidade. UM - Don't give a shit, man. DOIS - É como se existisse uma interferência. E você apenas fecha a porta desta interferência. UM - É isso. Tudo que estamos falando é sobre fechar a porta do que não interessa. ELA volta. O ar sempre fica mais poroso quando ELA volta. Escutam Prince. Bebem mais. ELA está menos aflita. DOIS oferece mais uma cerveja para ELA. UM levanta para uma carreira. Sai com o nariz escorrendo. UM - Está sujo? ELA - Não consigo ver. Fique contra a luz. E UM estende a cara para ELA. ELA o limpa. O VELHO chega, cumprimenta a todos. Senta perto de ELA e põe uma das mãos em sua coxa. UM inicia uma conversa sobre peças e revistas com O VELHO. DOIS oferece uma dose de seu jim beam para O VELHO. O VELHO aceita, cowboy mesmo, diz. UM - O garçom pode trazer um gelo. DOIS - Bourbon é bom assim. ELA e DOIS se olham. Se levantam. DOIS serve mais uma dose para UM e guarda a garrafa na mochila. UM levanta os olhos, pede que fiquem, eu te amo, diz entre a língua e a mandíbula para ELA, mas o som não sai da boca. ELA e DOIS se despedem, seguem para baixo. Música tocando. Passam por conhecidos, vão ao banheiro. O DIABO sai de uma das cabines. DIABO - Você está melhor? DOIS - Por quê? DIABO - Como por quê? DOIS - Por que você está falando assim? -"Poaaaarrrr quêêêêaaaaa?" O DIABO repete imitando o tom de um bêbado. ELA se mantém firme. DIABO - Você tem que amadurecer muito, precisa viver, não pode explorar essas coisas assim. DOIS - O que você ouviu falar sobre isso? DIABO - Como o que eu ouvi? DEUS me contou. Me contou tudo sobre a sua hemorragia. DOIS - Não é uma hemorragia. É apenas uma infecção. A boca do DIABO começa a tremer. DOIS - Sou completamente imaturo. Mas não sou idiota. O DIABO abre os olhos. DOIS - Há dias que não bebo. ELA confirma. O DIABO reinicia o sermão. Eu sei o que é isso, eu sou filho do Inferno. DOIS inicia a repetição de qualquer coisa, variantes sobre há dias que não bebo, mas percebe que já está embriagado. Troca para repetições de Ta bom. Ta bom. Ta bom. O DIABO silencia. Dá as costas. DOIS olha para ELA. Saem. Seguem ladeira abaixo. DOIS - O que aconteceu? ELA - O DIABO nasceu infectado. DOIS - Eu te amo, diz entre a língua e a mandíbula para ELA, mas o som não sai na boca. DOIS - Mas acho que não tem a ver com o DIABO.

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