Sábado eu fui até Penco, é uma cidadezinha, um povoado talvez,
eu olhava tudo com uma curiosidade estranha. Aqui já escureceu, a casa
toda se encheu de uma purpura sensacao. Silencio, eu nunca gostei, eu fico
sozinha, nao consegui sair de casa hoje,
quer dizer fui até o mercado abastecer
o estomago e mais nada.
Ainda nao pulei sete ondas, nao é para nada, só que gostaria de fazer isso
no Pacifico, me lembro que em janeiro mergulhei nas aguas frias,
agora eu fiquei sentada, entre dois homens, olhando o mar. O frio enchia
meus pulmones de uma dor quase citrica...
O mar ficou vermelho, rosado como sangue.
Adormeci...
Será que ando como uma refugiada?
Pensei nessa imagem a tarde toda, eu
aqui estou mais timida do que nunca,
nao me conheco nesse habitat, minha pele
anda produzindo muito oleo, parece querer me proteger do frio.
Ontem teve festa, comi algo chamado curanto, será que era para curar todo
o meu pranto? Piada idiota, nao? Era na casa de um moco que se chama
André, provei de um molusco que só existe nas águas frias desse mar. Esqueci
de levar a camera, queria te mostrar essa casa, tinha uma fogueira no quintal
e eu passei a noite tomando pisco com coca-cola, acho que aprendi a gostar,
da primeira vez que tomei pisco senti asco, vomitei depois. Talvez fosse
muito forte, talvez fosse um esquecimento, talvez nao era a hora precisa
de provar, nao era o pais certo, foi no Peru, entre as pedras de Lima.
O pisco abrigou o meu corpo,
me encheu de uma vontade louca de falar, de
repente me vi numa roda cheia de homens. Todos falando sobre relacoes
e mulheres. Eu me silenciei, fiquei de observadora, nao sei que estranha
conexao ocorreu, algo estava inflamando os animos.
Fez muito frio, fiquei embriagada, cheguei em casa numa camionete
branca, antiga. Abri a porta do quarto e me joguei no chao.
Tive que gozar para entender o que há nessa terra estranha.
Será que posso estar nessa casa de campo também? Quero ver a neve junto
com voce, me cortar, rasgar o rosto.
Sobre o teatro?
O que posso te confessar...
Eu tenho medo de nunca mais faze'lo, um medo que passa quando conheco
alguem que me diz que aqui é fácil agitar.
Ainda nao fiz grandes amigos, demorará, sou tao incrustada em minha forma
de ser, fico procurando as mesmas coisas e agora comeco a me dar conta
que nada será assim, como algo de que foi já.
Ando com preocupacoes mundanas,
tenho medo de me tornar prática e esquecer
o tempo da maturacao...
Ando pelo caminho inverso, já fui livre...
será que agora quero me aprisionar para ver se consigo criar em um lugar
hostil?
Querida Mendes, tenho aversao ao que me torno, mas nao consigo controlar,
faco muito sexo, tenho problemas ao despertar, espero com ansiedade a hora que o Jacaré chega,
as vezes quero apenas esquecer que estou aqui, mesmo querendo estar aqui.
Por que me apego e desapego tao rapido das coisas? Num minuto meu mundo pode acabar
e no outro comecar com a mesma forca que encontro num poema de Hilst.
Ninguém nunca volta para aquele lugar,
eu já nao posso voltar para aquele lugar onde eu estava.
Onde eu me refugiava, estou um pouco triste com isso.
Eu queria que o Chile fosse um bairro de Sao Paulo, eu tomaria o metro e desceria na tua
casa para entrar em orelhas cheias de tomates...
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