Sua visita, durante o final da tarde, foi muito oportuna. Não sei da sua opinião, mas fui tomada por hondonadas coloridas e fortes. Presenciei atônita a construção de um diálogo e não monólogos, suas considerações sobre o livro "Oceano Mar" me imbuíram sobre a questão da cor na escrita. O tempo todo fui levada por linhas de pensamentos diferentes que desembocavam nessa lógica.
Eu atentava para a leitura dos trechos do livro e minhas camadas eram direcionadas para vasculhar os sentidos da cor na literatura. Imaginei que cor teria a sua peça “Ladrões de vinho”, os meus textos, os livros de Cortázar, os poemas de Hilst. Esse seria o primeiro ponto, que cor teriam os textos se fossem cromatizados a partir de uma paleta? Esses e todos que tomamos contato?
O segundo seria como construir texturas linguísticas que ofereçam a sensação de cores. Como poderíamos decompor e dispersar diferentes cores dentro do amálgama textual? Teríamos correspondentes palpáveis, dentro da nossa língua, para dar conta das cores? Ou teríamos que criar certos códigos para despertar a sensação de cor ?
A cor pode ser escura, carregada, pode ser o colorido de uma pintura ou o rosado do rosto. Será que um texto pode ser uma atmosfera de cor desaguando em uma confusão de sentidos? Será que o leitor percebe um texto por meio da cor sem entender nada dos significados? O brilhantismo das cores poderia recriar as palavras?
A cor veio adentrar o campo das minhas preocupações textuais, passou a ser a obsessão mais recente que adquiri. Perseverante essa idéia, fundou todo um mundo, movimentou-me para a preocupação contínua de escrever como se pinta, ou seja, de aplicar a cor em uma superfície qualquer.
J.M, as hondonadas podem ser de cores?
Ou podem ser cores?
Ou podem ser cores?
E se não podemos definar as cores das hondonadas porque não possuem correspondentes na nossa língua? Temo que teremos que fundar outros mundos para dar conta do que parece mais real.
Será que todos os brancos que os esquimós vêem são como as hondonadas?
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