Nena, te escrevo a primeira de muitas cartas. Embora você ainda não tenha ido para o Chile. Mas sinto cheiro de papel e grafite. Escrevo para você porque estou cheia de espaços vazios no corpo que passam ventos - coisas que podemos destrinchar depois - e você é como uma segunda sombra agora pra mim. Mi nenita.
Nena, agora fico nesse constante "waht the fuck estou fazendo aqui?" A vida ta aí. E ta aqui. Lembra? Que porra de escola. Que porra de concurso. Que porra de militantes feministas. Ainda bem que eu estava bêbada. E vomitei parte da minha alma vagarosamente. O que eles escrevem é uma merda e eu também. Não entendo quase nenhum texto dessa sala. Estou bêbada, de ressaca e meio morta. Agora que você vai embora começo a me inspirar. Sou intensa mesmo - tento ser mais leve - mas leveza deixo para as coisas externas. Os sinais vermelhos e amarelos da Rua. As leis municipais, os assaltos, os preconceitos morais. Isso tudo é leve porque não tem nada a ver comigo. Mas o resto, o vento, o cheiro podre vindo da minha ressaca. A lembrança de um crepe saindo inteiro pela minha boca até a privada. Isso é pesado. E aquela menina de batom vermelho durante o bar que eu poderia ter amado. Mas quando cheguei em casa descobri que eu não poderia amar mais do que uma mulher por dia.
Nena, em que cidade agora? Em que país ou em que bairro? "En qué hondonada esconderé mi alma?"
Juba
complementos:
to sim, to ôca por dentro de tanta ressaca. e tanta coisa que atravessa a gente quando a gente deixa esses buracos abertos. me sinto meio ventando às vezes. enfim.
(imagem de uma pessoa que levou vários tiros e ficaram os buracos, mas eram balas de festim ou de algodão... não ferem mas deixam buracos, o problema é o que passa por lá, que vento e em que velocidade. às vezes o vento arranha e corta. às vezes amolece e refresca. às vezes arrebenta. às vezes levita.)
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