Temos que trocar endereço, pedir emprestado papéis de carta, canetas e envelopes. Lembrar das aulas de caligrafia e fazer uso de letra cursiva. Sabe?
Escrever em uma língua nossa, recriar significantes e dizer pequenas bobagens para provocar o riso rápido e disperso. Quero papéis de carta coloridos, outros dias escreverei em papéis de mercado, padarias ou farmácias. Colocarei flores ou terra e deixarei que as cartas cruzem as cordilheiras. Talvez elas possam trazer um pouco da neve que cobre os picos.
Em algumas manhãs, deitarei na cama com os pés para cima e rasbicarei frases sem nexo. Pensarei duas, três, quatro vezes, antes de enviar. Sei que no começo da tarde, caminharei até o correio, postarei a carta e terei sempre uma grande vergonha daquelas bobagens e também um certo orgulho de enviar os borrões para você.
Algumas cartas serão escritas em madrugadas frias, meus pés estarão gelados e minhas mãos suadas, as letras todas trêmulas.
Não sei quantas serão, sei que também experimento essa coisa de ser escrita para se fazer presença!
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Você tem toda razão, o meu queima perto das mãos. O suor veio antes do tornar-me. A umidade que não me deixa esquecer que sou terrena, quando penso que sou abstração, as gotas surgem em torrenciais quantidades. O corpo supre, diz sem criar códigos ou signos.
Lembro de livros que ficaram encharcados com o meu suor, a página amassada, as letras borradas. Minhas mãos alienavam o todo, apagavam as marcas para desenhar outros. O meu suor é pulsão, começa quando não espero, termina quando já me acostumo.
As vezes me desfaço em caldos e caldos. Sou toda uma grande secreção, sem cheiro ou gosto, faço-me inefável para ser decifrável. Tenho tanta água aqui dentro, entendi agora que não são vazios, são poças, lagos, chuvas que deslizam pelas pontas dos dedos, pelas tênues linhas, por toda carne. Vou me deixando um pouco por aí, suei muito no meu quarto, nos meus cadernos, em ruas, em lajes, apartamentos e quintais. Deixei meu DNA por ai...
De ser sombra
Ser sombra não é tarefa fácil, não é conformar-se, vivenciar a sombra é estar em completa presença dentro de uma ausência de valores e códigos de conduta.
Estar em estado de sombra é escorregar, deslizar por pianos, sons e cores.
Inventar toda uma linguagem e renomear toda a filosofia produzida.
Estamos naquela parte do céu que sempre fica escura, naquele vestígio de noite esquecido no canto direito do quarto.
A sombra protege e abriga, delimita todo um espaço, sem preenchê-lo de fato.
Poderíamos também ser penumbra, não sei ao certo.
A penumbra me lembra a transição da luz e a sombra.
Poderia ser até uma sombra completamente incompleta. Ser aquela gradação entre a escuridão total e a luz, uma meia-luz.
A penumbra pode ser a passagem para a constituição da sombra. O fazer-se sombra passa pela consolidação da penumbra como espaço de intersecção.
A penumbra pode levar-nos à hondonada. Será que a penumbra é uma hondonada disfarçada?
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