segunda-feira, 14 de março de 2011

Gosto de acordar e ter cartas me esperando....

Caríssima A.T.

Sálvia: Lembro-me do dia em que me senti um piano. Um tapete se escorregou pelo chão com um teclado enorme que se levantava em forma de onda. E eu era um gomo, como um gominho de limão, daqueles bem pequenos, que ao escorregar pelo piano, fazia um som, era uma partícula tonal que escorregava pelo teclado inteiro e PLOC, se estourava ao criar notas, e ao finalmente chegar na última tecla eu pulava em direção ao nada e minha existência já não era necessária. No que viriam outros gomos como eu para criar outras notas. Era uma alegria infantil e facilmente poderia associar essa experiência à vida, não tinha nenhuma angústia ali. E este gomo facilmente poderia ser uma hondonada que se estoura. Hondonadas se estouram?, mas se estouram ficamos assim mesmo com o peito completamente aberto carne esfregada ou há sempre uma hondonada que não se abre a não ser para nós mesmos? Algo como aquela coisa de estar invevitavelmente sozinhos, mas não podemos então, pular com todo o pulso, todo o empenho e abertura para dentro de uma corredeira? Imagine a imagem de um homem saltando do alto de uma pedra para um Rio, no que ele abre os braços e parece voar - aliás, não é esta sensação? A de voar?. Parece clichê vez ou outra. Mas é incrível como às vezes por milésimos de segundos derretemos o tempo e as coisas e podemos estar inteiramente dentro e expressos a partir das hondonadas - as nossas, as dos outros, as dos dias.... Já não sei.


Fuck! O andar 7,5.


Sobre a escrita não sei. Existe a sensação de que se fala sobre a mesma coisa - também - mas sob signos diferentes. E isso às vezes me irrita como às vezes me encanta, depende do que se faz com eles. Ou não são as mesmas coisas e estamos abarcando sempre mais mundos? É custoso se manter sempre presente. Neste presente ativo que é escrever com estômago, costas, pernas, desejos operando. E o filtro, nosso filtro, que vai ficando cada vez mais fino.

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