terça-feira, 23 de agosto de 2011

uma taça de vinho as dez da manha

Dez da manha e sorvo um pouco de vinho,
abro a valeriana que na estante meu pai deixou. Trago sem pressa, a chuva sonoriza minha manha.
Eu tento consagrar o meu anjo da guarda, todos que encontrei, tenho experiencias fenomenológicas, a ficcao tem mais sentido. Isso aqui, nao.

A moeda caiu do meu bolso, logo depois das 13 da tarde, caiu, correu por toda a sala de espera do hospital, no centro, bem no centro, escorregou feito água quando vai pelo ralo, simetricamente, me assustei, nao gosto de analogias. A moeda desenhou um circulo no chao, rasbicou com forca, eu parei, abri e fechei os olhos tantas vezes que nao consigo me lembrar exatamente.

A sala de espera estava vazia, a tv apagada, as gaivotas davam mergulhos rasantes do outro lado da janela, senti a garganta fechar e pensei que um bom vinho era a solução para o meu desalento. Talvez eu tenha uma tendencia para o alcoolismo, meu avó era alcoólatra, todo dia bebia, era um ritual sagrado, a cerveja antes e depois do almoço  servida em um copo de vidro certo, ele abria sempre duas, uma bem gelada e outra em temperatura ambiente.

Eu lembro disso, como também lembro da culpa que ele sentia, da historia da cocheira, do coice na cabeça,  da morte prematura do irmão. Meu avó queria tocar piano, mas nunca conseguiu, o pai achava que era coisa de pederasta, PEDERASTA? Foi inscrito num clube, o Esperia, virou esportista, ganhou medalhas de remo e nado, competia no Tiete. Depois cantava na Igreja...

Ontem a minha avó me machucou, ela me unhou diversas vezes, mesmo entubada, mesmo cheia de fios e injeções, eu fiquei ali cantando, cantando que amanha de manha a felicidade vai desabar sobre os homens, talvez ela não acredite, talvez ela não queira ver que há muito amor por aqui também. 

Eu sorvo outro vinho, como um pouco de queijo e me preparo para sair e adentrar naquele local que sempre marca as 12h, todos os relogios marcam 12, meus doze trabalhos, como o de Hércules. E gosto de saber que o número 12 é um número abundante, soma de dois números primos.


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