perguntei a ela porque meu nome era esse
julias eram guerreiras, da época de roma
do júlio césar?
julia era uma canção dos beatles que eu escutei quando estava grávida de você
mas ainda assim julia não rima
julia é o nome da filha do lalado

.
e então depois de 23 anos chego para conhecê-lo
ele me espera. homem de 60 com barba de bode. assim como me haviam dito.
apresenta-me seu amigo - o bispo - que depois descubro ser apelido
abraço-os como se fosse saudade
pegamos a estrada
o sol da tarde
conversas soltas riso dente aberto
deu na telha e falei algo sobre vela oceânica
"o bispo tinha um barco com uma águia pintada na vela" ele disse
"você quer velejar um barco específico?" o bispo pergunta
"não"
"ela já conhece o laser, bispo, agora ela quer um barco para atrevessar o mundo"
cócegas por dentro, continuei sem ter dito nada
"sim, mas pode ser uma escuna? porque se puder ser uma escuna, nós vamos ver uma escuna para comprar amanhã e se é pra aprender, aprender de aprender, eu te ensino, se for outro barco, nós arranjamos outro barco."
"ela quer a carta para atravessar o mundo, bispo"
"então levamos ela na marinha depois disso"
"viu, julia, este bispo é um milagre"
sorri
olhei para o céu - parece que é maior aqui, pensei
"podemos ver a escuna agora", o bispo se anima de súbito
"ela está cansada, bispo"
"olhe", tentei dizer, "eu estou bem, podemos ir agora"
"viu, bispo? esta é julia"
fomos.
entrei pelas entranhas
atravessei os trilhos do trem atrás da favela de pala-fita
entrei em uma portinhola de madeira e barcos
barcos para todos os lados banhados pela baía de todos os santos
barcos de fibra madeira em reforma esquecidos naufragados
esqueletos de barcos e sonhos de barcos
barcos aposentados apodrecidos
e pedaços de barcos
o homem que nos atende sorri para o bispo
"viemos olhar os barcos"
"algum tipo específico?"
"vamos olhar só"
"algum tamanho?"
"só uma olhada"
lalado olha para mim e ri
debocha baixinho do bispo, "mas que tipo de barco ele quer dar uma olhada? é que o homem quer saber"
o bispo se aproxima e nos alerta
"eu vou mostrar qual é a escuna, não está pronta ainda, mas precisamos fingir que estamos vendo outro barco, senão eles subirão o preço"
paramos diante de um barquinho de uns 6 metros
"olha este barco" o bispo diz e acena com o queixo em direção a escuna que está logo atrás
lalado vai direto a escuna
o bispo rosna
lalado diz "não gosto de ficar fingindo não"
acabamos subindo na escuna
o sol começa a descer
"por mim", eu disse, "não precisava nem pôr este barco na água"
"você viu, bispo, ela disse que poderia morar aqui"
"aqui é realmente muito bonito"
saio da escuna e vou andando entre os outros barcos
o sol se põe completamente
saímos
entramos no carro
o bispo abre um sorriso
"viu o tamanho do barco? o porão está ôco, podemos construir as divisões como quiser. eu vi o esqueleto deste barco nascer!"
"agora já temos 3 sócios, bispo, eu você e a julia."
assumi que a idéia me agradava.
"julia, julia, toda julia que eu conheço é assim."
"assim?"
"é. eu sou um encantado com o nome julia. você sabe que eu tenho uma filha chamada julia?"
sorri. eu sei.
"pois vou te contar uma história, do porque minha filha se chama julia."
por quê?
"há muito tempo havia aqui em salvador uma mulher linda chamada "julia fetal", ela era de uma personalidade muito forte, acho que foi uma das primeiras mulheres a imporem a sua feminilidade na cidade naquela época, muito machista. a família de julia arranjou o casamento dela desde pequena com um milionário daqui. ficaram noivos por um tempo. julia fez que fez que conseguiu desatar o noivado. o milionário que era apaixonado por ela, enlouqueceu e tentou tê-la de volta a todo custo, quando viu que não conseguiria ele disse "se julia não vai ser minha, não vai ser mais de ninguém". Mandou banhar seu revolver com balas de prata dizendo "o chumbo não entra no corpo de julia." . atirou. julia morreu com duas balas de prata no peito. e está sepultada aqui em salvador. eu nunca mais esqueci."
.

.
.
.
(pesquisei e a tal Júlia Fetal existiu de fato, mas a bala não era de prata. era de ouro. lavrada por um joalheiro com o próprio ouro da "aliança inútil". .. nota achada: " O crime aconteceu em 20 de abril de 1847, Júlia Fetal, moça instruída de incomparável beleza, tinha então 20 anos e seu prometido noivo e algoz, o Catedrático de Geografia e História no Liceu, Estanislau da Silva Lisboa, 28 anos.")
Lindo, assustador, daquelas coisas que marcam, estremecem e nos fazem chorar por um turbilhao de sensacoes.
ResponderExcluirSou dois com ares de uma santissima natureza...
as vezes triste
as vezes combatente...
poético!
cruzar os mares, valeu JULIA!