Me desajusto com a historia que vivo, eu desci as escadas rapidamente para nao perder o trem que passava la no fundo. Eu odeio escutar musica alta quando estou sozinho, me alimento dos tres graus, a noite nao dá tregua e eu a espero chegar do trabalho. Lembro do ultimo dia, eu me esforcei para encontra-la, era literalmente o tempo saindo pelos poros do meu rosto.
Inventei uma pequeno conto, corri por ruas, tenho algo enlatado, a garganta se fecha para nao vomitar, prefiro manter isso como um segredo. Ela tinha os cabelos cacheados, como milhares de outras, entrei pela porta da frente, nao é voce que eu espero hoje, nao sera com voce que irei me deitar. Eu nao sou o homem que amarra os seus sapatos, quanto tempo estivemos juntos?
Talvez eu soubesse da morte eminente da minha razao. Voce sempre desconfiou da minha higiene, dos meus habitos tao porcos, eu quase nunca tomava banho, eu nao poderia depurar o seu cheiro. Ela nao chega, eu acendo um para ver se melhora, odeio a espera estarrecida por algo que eu nao conheco.
Lembro da noite, em que com os pes para o alto, voce dedilhava pocoes de tons, eu me agarrava aos seus cabelos justo no momento em que eles comecaram a cair. Era voce que falava com naturalidade sobre qualquer coisa, eu lembro do recorte da janela, era o mesmo hotel que anos atrás com uma outra femea, me hospedara. Voce nao vai se lembrar, eu nunca te contei que violei uma menina, é foi sem querer, no meu desajuste. Violei por pura distracao, para me entreter, eu acredito que ela nao vai chegar tao cedo, nao vai chegar porque foi encontrar o ex, o ex de oito anos, de oito longos anos. Oito, o que oferecer para apagar oito anos, eu nao sou tao bom assim para faze-la esquecer, sou?
Voce pode me dizer que sim, eu fui bom para voce, eu comi o seu cuzinho em algumas noites, voce se entregou inteira, ate colocou bolinhas diante do espelho, eu nao tenho medo de ficar nu diante de voce, com a barriga mole e o penis pequeno, voce me fez sentir medo de mim mesmo, eu revelei as fotos, revelei para tentar decifrar. Ela nao chega, nao chegara nunca, eu nao tenho a chave porque de verdade nao é a minha, porque casa como disse Eliot é de onde a gente vem, certo? Casa, lar, talvez tudo dá na intensidade.
Eu te disse que era bom ser mulher, homem sofre para agradar o tempo todo, voce riu com um certo escarnio. Eu espero ansioso para que ela chegue, nao é voce que vai chegar, de fato sei que voce nunca andara por aquí, nem tao perto, o fato mesmo é que a gente nao poderia andar mais juntos, o tempo do descaso tinha acabado, eu sei que isso é extremamente ridiculo, assumir que era um mes para delirios e infartos.
Voce tambem andava nua pelos corredores, era engraçado ver a sua bunda balancando e o seu cheiro corroendo os moveis, voce acabou com a mesa de centro, lembra? Renascemos pela metade, porque uma parte ficou incrustada na parede da cozinha, era o detergente que voce jogou no meu olho, voce adorava cozinhar nua, eu dizia para voce que era perigoso, dizia sempre que era perigoso, mas voce insistiu tanto em fazer o feijao. Lembro da queimadura marcando por dentro, ela nunca vai chegar e eu vou ter que escrever trezentas paginas para voce, eu gozei quantas vezes na sua buceta? Mais de oito vezes? Muito mais de oito eu diria, voce estava contaminada por uma necessidade de exibir-se, porque voce nao me deixou em paz, era a sua busca por algo, a sua maldita busca, eu pintei todas as paredes de branco depois que voce insistiu em cortar os seus cabelos na agua suja do balde.
Os brincos eu guardei dentro do vaso sanitário, era o melhor lugar para as lembrancas. Eu me sinto preso, nao consegui aliviar-me, como me agarrar em algo que esta tao longe? Prefiro nao detectar nada, a paisagem me desordena, fecho a cortina para criar aquí o que aí eu tinha em demasia. Ela nunca vai chegar, eu comprei pacotes de macarrao e algumas bolachas, sei que ela gosta, eu tento agrada-la como te agradava, voce me trazia bobagens para comer. É, o tempo parece ser o mesmo de antes, eu arranco a superficie das coisas para ver no que vai dar, voce era uma cuia de carinho e uma feminilidade desanuviada.
Era eu ou voce que partia? Nao lembro quando desci os ultimos lances, nem a hora exata do adeus, estavamos numa jornada unica, desbravar-nos. Eu agredi uma mulher, eu sempre saio com as maos sujas, voce sabia disso desde o comeco e mesmo assim decidiu dormir ao meu lado, de fato dormiamos pouco.
Pouco nao é o quanto a gente se conhece, nao terei nunca tempo para depurar as coisas, somos ridiculos por inteiro, lembra? Gosto de tudo que vem do corpo, que sai do corpo, mesclando tudo. Eu sempre gostei da sua pele depois do banho, me dava a possibilidade de suja-la, fazer com que a sua dignidade se descolasse do seu corpo.
Eu tenho uma inconsistencia parcial, eu nunca cuido do que amo, tenho medo que as pessoas sejam mortas por minha causa, tenho um pesadelo recorrente, meus amigos me saludam na rua e sao atropelados. Voce sempre me tirava o peso das costas, nao sei quanto tempo levamos ate virar musgo, eu me envenenava com a sua natureza heroica.
Ela nao chega e eu nao consigo escrever mais nenhuma linha, o vinho acabou e faz muito frio para sair. Tenho os pés metidos nas suas meias, as mesmas que voce tirou do canto direito da cama. Voce sempre me disse que ser mulher é foda, eu nunca entendi isso, penso que só era a sua maneira de estar viva, algo como assombroso e movedico.
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