De
vento em popa, eu vou me esquecendo, sem perceber as coisas perdem o grande
significado, banalizo até o meu sapato vermelho. Não tenho dinheiro algum para
quitar as minhas dívidas. Reflito pouco, porque penso muito e de fato penso
muito, porque não gosto de chorar. Os dias seguem de par em par, eu vou
deslizando pelo cano do banheiro. A torneira goteja, me enche de uma gosma
amarga, dissipo em mim, uma dor de duzentas gerações. Perturbada, abro o zíper
da calça, balanço as tetas para os passantes. Goteja o mar em mim, outra
recaída? E a ordem das crises, alguém poderia concatená-las. A primeira foi há
14 anos, cheia de uma certa virilidade de adolescente, minha boca cheia de
feridas, emagreci, chorei durante meses e era uma dor fora de mim. Uma dor
maravilhosa e fétida. Lembro que gravei diversos cassetes, eu tinha um grande e
negro aparelho de som, onde metia, com minha língua cansada, dezenas de
palavras que eram impressas numa fita escura.
e sinto que meu corpo sempre
corresponde bem antes do que as lágrimas
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