
tem este passarinho que mora aqui
um dia estávamos eu e Ele tocando algum instrumento
com suas respectivas drogas
e o passarinho começou.
começa sempre de madrugada
lá pras 2h ou 3h
nos olhamos
ao que o assimilássemos
ele é horrível, comentei
não sai deste mesmo tom
é um desesperado
solitário
histérico
fica aí esganiçando com o relógio errado
enquanto todos os outros, veja bem,
estão dormindo.
pausa
não achei nos olhos Dele nenhuma correspondência com o que eu falava.
e na primeira discordância
começamos uma discussão séria sobre a qualidade do canto do passarinho.
eu o nomeei de Dizzie Gillespie,
e o condenei de ter algum erro congênito
e ele desvendou por trás do meu desgosto um preconceito de ordem atonal
- então você não gosta do Dizzie Gillespie?
sim, e não, não assim, pela madrugada,
nem na voz deste passarinho,
passarinhos não nasceram para serem assim, piorei.
e aos poucos meu discurso foi ficando cada vez mais facista
enquanto ele defendia ferozmente a liberdade de expressão do pássaro
e eu já querendo que desimassem todos as aves que cantassem fora do tom
e agora Ele era ali toda a representação de defesa de um passarinho desmilinguido
com algum problema psicológico querendo ser reconhecido
ou tão genial, que só os incompreendidos, verdadeiros artistas, o reconhecessem
e Ele então para dar base ao seu argumento deve ter citado algum filosofo
Exposto a voz, que só os piscianos falam, do campo musical extremo do inconsciente coletivo
que nós, pequenos concretos mediocres aquarianos, não temos nenhuma competência para auscultar
então fiquei com mais raiva deste passarinho, agora com um advogado em potencial, que daria o seu sangue por ele.
E mesmo que um pássaro não pudesse ser tão perverso assim
eu tinha toda a perversidade que precisávamos para iniciar uma guerra e finquei seriamente minha posição.
Agora está definido:
quando encontrá-lo na rua de madrugada, voltando de alguma noitada, bêbada ou triste como um cachorro
- será eu ou ele.
e como um sábio e facista espadachim, não fincarei minha espada no seu corpinho mole, mas
SIM, treinarei com ele, noites a fio numa gaiola,
até que ele se adequasse e cantasse como os outros passarinhos e no horário certo de manhã
agradável como todos os outros.
e quando ELE, quando ELE, o pisciano, viesse aqui, me visitar, não teria nenhum Dizzie para encarnar,
defender, elevar, etc
a não ser o próprio impronunciável, Dizzie, preso no meu toca-discos
e então não me olharia mais com aqueles olhinhos culposos
de quem não entende uma crueldade tão grande para/com um pequeno animal
que canta, imperfeitamente sim, e em repetitivos artomentatos tons atonais, mas com todo o seu direito e sua incompreendida qualidade musical,
- este poderia ser o nosso artaud - O pisciano completaria
o suicidado pela sociedade.
e eu diria - QUE VÁ A MERDA O ARTAUD
e que me deixe dormir em paz
e iria para o quarto sabendo que meu próprio espírito é que não está em paz
e travaria assim
este conflito
até quebrar clarinetes
violões
surdos
pandeiros
jogar limões pelos chão
arrancar tapetes
vitrolas
e discos
até que ficasse instaurado uma ordem de caos
tão grande que incomodasse o próprio passarinho
e ele soubesse que ninguém pia fora do tom aqui
e eu gritasse na janela quando ele fosse embora humilhado "quem é mais artaud aqui então?????"
e instauraria-se uma guerra violentissima contra mim mesma que só terminaria
com a condenação do próprio passarinho interno.
mas, felizmente, você veio aqui, entrou na minha casa,
na minha madrugada,
e mesmo na presença Dele, do pisciano,
com os olhos mais serenos e definitivos, anunciou
"eu também não gosto deste passarinho".
e agora, com este pequeno amparo,
ouço o passarinho e rio
e durmo
e até aceito
a presença dele aqui.
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